Seminário LIDE Transportes reuniu autoridades e executivos para discutir concessões, integração logística, mobilidade elétrica e os caminhos para ampliar os investimentos no setor.

O Brasil prepara uma nova etapa de expansão da infraestrutura de transportes, com oito leilões ferroviários programados, a ampliação das rodovias federais concedidas dos atuais 18 mil para 25 mil quilômetros até 2027 e mais de R$ 400 bilhões em investimentos privados contratados para os próximos dez anos. Os projetos e os desafios para transformar essa carteira em ganhos de competitividade foram debatidos nesta quinta-feira (30), na Casa LIDE, em São Paulo, durante o Seminário LIDE Transportes.

O encontro reuniu representantes do governo e executivos dos setores rodoviário, ferroviário, portuário, logístico e de mobilidade. As discussões trataram da participação da iniciativa privada nos investimentos, do financiamento de projetos, da segurança jurídica, da integração entre os diferentes modais e do uso de novas tecnologias.

Diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Guilherme Theo Sampaio afirmou que o país já realizou 22 leilões rodoviários e prevê outros quatro neste ano, totalizando 26 certames em quatro anos — média de aproximadamente um a cada dois meses. Segundo ele, a extensão das rodovias federais concedidas passou de 12 mil para 18 mil quilômetros e deverá alcançar 25 mil quilômetros no próximo ano, o equivalente a um terço da malha pública federal.

“Temos contratados para os próximos dez anos, não dos 30 anos de concessão, mais de R$ 400 bilhões diretamente com a iniciativa privada”, afirmou.

Sampaio defendeu que os transportes sejam tratados como uma agenda de Estado, independentemente das mudanças de governo. O diretor-geral da ANTT também afirmou que os usuários passaram a demandar, além das obras, pedágios eletrônicos, sistemas mais eficientes de pesagem, conectividade, corredores para recarga de veículos e integração entre rodovias, ferrovias e portos. Segundo ele, as rodovias concedidas registram uma redução média de 25% nos acidentes em comparação com as rodovias federais públicas.

Oito leilões ferroviários

WhatsApp Image 2026-07-30 at 09.56.53Leonardo Ribeiro, secretário nacional de Transporte Ferroviário. (Foto: Evandro Macedo/LIDE)

O secretário nacional de Transporte Ferroviário, Leonardo Ribeiro, afirmou que os avanços institucionais e regulatórios precisam ser transformados em projetos. Segundo ele, oito leilões ferroviários estão programados, parte deles relacionada a contratos firmados na década de 1990 que se aproximam do fim da vigência.

Entre as iniciativas apresentadas pelo secretário está o chamamento público do corredor Minas–Rio, formado por um trecho devolvido da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA). O modelo prevê a disponibilização da malha pelo governo e a participação da iniciativa privada por meio de contratos de autorização.

Ribeiro também citou o projeto da EF-118, que deverá conectar o Rio de Janeiro ao Espírito Santo. De acordo com ele, o projeto contará com aporte governamental durante a fase de investimento.

Para viabilizar a carteira ferroviária, o secretário mencionou aportes do governo, investimentos cruzados, garantias públicas e uma linha especial de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com prazo de 40 anos e carência durante a fase de investimento.

“Não é o Estado substituir o privado. Pelo contrário, é auxiliar o privado nesse trabalho”, declarou Ribeiro. Ele também afirmou que a exploração imobiliária poderá ser combinada aos projetos para reduzir a diferença entre os recursos disponíveis e os valores necessários para viabilizá-los.

CEO da VLI Logística, Fábio Marchiori defendeu um planejamento integrado para o sistema de transportes, capaz de atravessar períodos de 20 ou 30 anos. O executivo abordou a articulação entre os diferentes modais, a situação dos trechos ferroviários que deixaram de operar e a renovação da concessão da FCA.

Murilo Martins, CEO da Loram, afirmou que o volume transportado pelas ferrovias de carga passou de aproximadamente 250 milhões para 550 milhões de toneladas úteis desde as privatizações do fim da década de 1990, enquanto parte da estrutura de suporte das vias permaneceu a mesma.

Segundo Martins, a digitalização pode contribuir para ampliar a capacidade da malha e permitir a adoção de modelos de manutenção prescritiva. O executivo afirmou que as ferrovias representam atualmente 22% da matriz de transportes e citou o plano do governo de elevar essa participação para 30%.

Investimento privado e custo do capital

WhatsApp Image 2026-07-30 at 10.17.37André de Angelo, CEO da ACCIONA no Brasil. (Foto: Evandro Macedo/Divulgação)

O Brasil deverá receber R$ 300 bilhões em investimentos em infraestrutura em 2026, dos quais 83% serão provenientes da iniciativa privada, segundo André de Angelo, CEO da ACCIONA no Brasil. O valor contempla transportes, saneamento, telecomunicações e energia e, de acordo com o executivo, corresponde a pouco mais da metade do necessário para manter o estoque atual de infraestrutura do país.

“O grande gap é o transporte. Ele representa 80% privado, mas ainda a necessidade é muito maior”, afirmou.

De Angelo também disse que o país possui aproximadamente 1.200 quilômetros de sistemas metroferroviários de passageiros e precisa acrescentar pelo menos 2.500 quilômetros para atender à demanda.

O executivo citou a Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo como exemplo do impacto dos investimentos em mobilidade. Segundo ele, um deslocamento que atualmente leva cerca de uma hora e meia de ônibus poderá ser realizado em 23 minutos.

“Isso representa duas horas e meia a mais para essa pessoa na sua vida, para estudar, para estar com a família, para ter um outro trabalho, enfim, para melhorar”, afirmou.

De Angelo defendeu a definição de prazos para os processos de licenciamento ambiental e a inclusão, nos contratos de concessão, de mecanismos que permitam adaptações ao longo dos anos. Ele também apontou o atual patamar dos juros como um entrave aos investimentos de longo prazo.

“Uma taxa de longo prazo a 14%, 15%, 14% ao ano, como que a gente consegue botar de pé um investimento de R$ 20 bilhões e amortizar isso em 30 anos? É inviável”, declarou.

Geopolítica e integração logística

WhatsApp Image 2026-07-30 at 10.51.18Ricardo Buteri, presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL) e CLO da Santos Brasil. (Foto: Evandro Macedo/LIDE)

Presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL) e CLO da Santos Brasil, Ricardo Buteri afirmou que as cadeias de abastecimento passaram a considerar, além da eficiência, fatores como previsibilidade, diversificação de fornecedores e redução de riscos. “Não existe cadeia logística imune à geopolítica”, afirmou.

Buteri citou a crise no Mar Vermelho, que, segundo os dados apresentados por ele, reduziu em 82% o volume de cargas conteinerizadas pelo Canal de Suez, acrescentou de dez a 14 dias ao tempo de trânsito e elevou os custos dos fretes.

O executivo também afirmou que a Santos Brasil responde por 18% do trânsito do comércio internacional brasileiro e possui participação de 44% no mercado de contêineres do Porto de Santos. Em sua avaliação, portos, aeroportos e operadores logísticos passaram a exercer uma função estratégica diante das mudanças no comércio internacional.

Mobilidade elétrica

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Marcelo Schneider, diretor da BYD. (Foto: Evandro Macedo/LIDE)

Marcelo Schneider, diretor da BYD, apresentou a mobilidade elétrica como parte de um ecossistema que inclui geração e armazenamento de energia, baterias, componentes eletrônicos e veículos destinados a diferentes tipos de operação.

Segundo ele, a eletrificação já está presente no transporte urbano, na logística, em aeroportos, portos e na mineração. Nos caminhões empregados pela indústria de mineração, Schneider afirmou que a tecnologia pode reduzir entre 60% e 70% os custos operacionais.

O executivo também abordou o planejamento das recargas e o uso de inteligência artificial para otimizar a operação das frotas. De acordo com ele, a BYD prevê instalar mil carregadores ultrarrápidos no Brasil, capazes de carregar um veículo em cinco minutos.

Schneider afirmou ainda que a companhia investirá no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, em pesquisa, desenvolvimento e testes de veículos autônomos, além de prever a entrega de 100 ônibus elétricos à cidade de São Paulo até o início de 2027.


O Seminário LIDE Transportes contou com patrocínio de ACCIONA, BYD e JSL; apoio de BMX1 Engenharia e DP World; e teve Jovem Pan, TV LIDE, Revista LIDE, LIDE.com.br e Brasil Confidencial como parceiros de mídia. 3 Corações, Bauducco e The Natural One foram os fornecedores oficiais, enquanto Netglobe, RCE Digital, TCL SEMP e The LED atuaram como operadores de tecnologia.