A adoção estruturada de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) e a integração de dados no sistema de saúde brasileiro têm o potencial de estancar um ralo financeiro que consome anualmente cerca de R$ 240 bilhões — perdas decorrentes de fraudes, má gestão, ineficiência e duplicidade de exames. O alerta econômico serviu como principal pilar das discussões do Seminário LIDE Saúde Pesquisa Científica, realizado nesta terça-feira (6), em São Paulo, que mapeou a transição de uma medicina episódica para um modelo preditivo e hiperpersonalizado.

Margareth Dalcolmo, Tania Cosentino e Fernanda Catena. (Foto: Graziela Alcova/LIDE)

Para Tania Cosentino, ex-presidente da Microsoft no Brasil, a tecnologia deixou de ser apenas um apoio administrativo para se tornar a garantia de viabilidade e acesso no setor. Segundo ela, a IA deve ser tratada como política de Estado, capaz de revitalizar a indústria e desburocratizar o acesso a novos tratamentos.

“Imagina 240 bilhões de reais de desperdício por ano, é quase o orçamento federal para a saúde. A gente poderia agilizar usando IA toda a resolução da Conitec para aprovar um medicamento”, destacou Tania. “A burocracia não deveria ser mais barreira. É um dado de IA na saúde para trazer eficiência e liberar recursos, ou para devolver dinheiro para a sociedade, ou para que todos tenham um acesso melhor.”

No consultório, essa abundância de dados provenientes de sensores e prontuários altera radicalmente a conduta clínica. A médica Fernanda Catena, especialista em longevidade da Vila Nova Star, argumentou que a prática atual é limitada porque avalia a saúde apenas em fragmentos de tempo. O futuro exige a análise do “expossoma”, compreendendo como genética, ambiente e comportamento interagem continuamente.

“Hoje a gente tem uma medicina em fotos. As condutas de saúde se baseiam no dia que a gente vai ao médico ou no dia que a gente faz um exame”, explicou a especialista. “Será que a gente consegue mudar essa conduta e ter uma medicina de um filme? A medicina da longevidade do futuro vai avaliar três componentes essenciais: o indivíduo, o ambiente e a comunidade.”

Contudo, o salto tecnológico e a hiperpersonalização perdem o sentido se não tiverem impacto social direto. Margareth Dalcolmo, pesquisadora sênior da Fiocruz e diretora de medicina da PUC-Rio, lembrou o legado deixado pela pandemia e a urgência de preparar a institucionalidade do país para as próximas crises sanitárias. Para ela, o uso ético da tecnologia deve servir para reduzir as graves desigualdades brasileiras e devolver ao médico o tempo necessário para o acolhimento.

“Ser disruptivo não é exatamente criar algo novo, revolucionário, é fazer algo que tenha uma destinação”, ressaltou Margareth, projetando a integração da Inteligência Artificial no mundo real. “A medicina do futuro será aquela em que nós, pesquisadores e médicos, vamos nos valer das tecnologias para dedicar mais tempo àquilo que nenhuma tecnologia conseguirá nunca substituir: compreender a pessoa que estamos cuidando, interpretar o contexto e tomar decisões mais humanas, mais sensíveis e mais inteligentes.”

Ciência básica, ensaios clínicos e gargalos estruturais

Se os dados e a IA formatam o novo modelo de atendimento, a ciência básica, a genética e os ensaios clínicos representam o motor que alimenta a inovação. Durante o evento, painelistas mapearam os desafios de infraestrutura, regulação e fomento que o Brasil precisa superar.

Na vanguarda da genética, a bióloga molecular Mayana Zatz, da USP, demonstrou como o estudo de supercentenários brasileiros está ajudando a decifrar os segredos celulares de quem ultrapassa os 100 anos com saúde. Ela destacou avanços como a bioengenharia de tecidos e o xenotransplante (órgãos de suínos modificados para humanos) como respostas futuras à escassez de doadores. Outro destaque foi a pesquisa nacional pioneira que utiliza o vírus da Zika para destruir tumores cerebrais, provando o potencial da inovação gerada no país.

Para que essas descobertas cheguem às prateleiras e aos hospitais, o ambiente de pesquisa clínica precisa de escala. Cassiano Berto, diretor de Pesquisa Clínica da EMS, pontuou que o novo marco legal do setor já gerou um aumento de 15% nas pesquisas aprovadas pela Anvisa. No entanto, o Brasil ainda sofre com gargalos de infraestrutura: dos mais de 500 centros de pesquisa qualificados, menos de 5% operam como “hospitais inteligentes”, o que atrasa a captação de pacientes e a geração de dados de mundo real essenciais para estudos inovadores de fases 1 e 2.

A prova de que a tecnologia nacional pode superar barreiras de escala veio com Carlos Carvalho, diretor de saúde do HCFMUSP. Ele detalhou o projeto da Tele-UTI obstétrica conectada, que integrou agnosticamente equipamentos médicos em tempo real durante a pandemia. A iniciativa monitorou 24 horas por dia gestantes em estado grave, reduzindo a mortalidade materna em quase 50% nas unidades atendidas. O case atesta a capacidade do Brasil de gerar resultados de impacto no SUS utilizando inteligência e equipamentos locais.

O financiamento e o controle de todo esse ecossistema, porém, geraram debates profundos. Nelson Mussolini, presidente do Sindusfarma, defendeu veementemente que a segurança jurídica e uma lei forte de propriedade intelectual são pré-requisitos inegociáveis para atrair os altos volumes de capital privado exigidos pelo setor farmacêutico. Na sua visão, a pesquisa é um investimento de risco que deve ser liderado pela iniciativa privada, cabendo ao Estado focar recursos em determinantes sociais, como o saneamento básico.

O professor Abílio Afonso Baeta, da Universidade Brasil, trouxe um forte contraponto sobre a formação de talentos e o papel do Estado. Ele frisou que a pesquisa básica de ponta não existe no mundo sem investimento público maciço, citando instituições de excelência europeias. Baeta alertou que a IA está reestruturando as competências do mercado de trabalho e criticou a rigidez burocrática da Capes, afirmando que a academia brasileira precisa de autonomia para abandonar modelos engessados e passar a formar pesquisadores focados em problemas estratégicos nacionais.


O Seminário LIDE Saúde Pesquisa Científica tem patrocínio de EMS, Interfarma, CN Saúde e Universidade Brasil, além do apoio do Hospital Israelita Albert Einstein e de The Natural One. Os parceiros de mídia são Grupo Jovem Pan, TV LIDE, Revista LIDE, Lide.com.br e Brasil Confidencial. Os fornecedores oficiais do evento são 3 Corações e Bauducco. Os operadores de tecnologia da Casa LIDE são: Netglobe, RCE Digital, TCL Semp e The Led.